Arquivo de 13 de Março de 2008

Brasil Novo foi rápido, mas intenso.

Decidimos sair de Altamira pela BR 230. Como disse num dia desses, a Transamazônica passa ao lado da cidade, num trecho meio esquecido, pois ainda é de barro, acidentada e estreita nas proximidades de uma cidade toda pavimentada. Por isso mesmo decidimos voltar uns 8 km e seguir viagem por ela ao invés de sair por dentro da cidade.

Logo no início conhecemos a Dona Antonia. Paramos uns segundos para o Marcos subir no teto do carro e se ajeitar para filmar esse trecho. Ela surgiu do meio da juquira e chegou devagar enquanto “falávamos com a câmera” sobre o asfaltamento do trecho.

Do jeito que chegou começou a rir e soltou…….já ouço isso há vinte anos. Eles dizem que vão asfaltar……… Depois dessa olhou para o Marcos e perguntou: - Esse não é o moço da televisão?

Altamira2 - Altamira2

Depois de conhecer a Dona Antonia seguimos pela 230. esse trecho foi o mais estreito que encontramos desde Marabá. Nele a vida passa normalmente como em qualquer outro lugar………

Altamira3 - Altamira3

Altamira4 - Altamira4

Altamira5 - Altamira5

Altamira6 - Altamira6

Quase no final do caminho encontramos…….

Altamira7 - Altamira7

…….. a sede do DNER (ainda está escrito assim mesmo). Lá uma preciosidade…….

Altamira8 - Altamira8

Saindo de Altamira me bateu um sono incontrolável. O Marcos assumiu a direção e só me dei conta do caminho quando já havíamos chegado em Brasil Novo.

Chegamos pela hora do almoço……já um pouco passada, é verdade! Não conseguimos um lugar que ainda tivesse comida e fomos comer um “lanche” na padaria Art Pães. Lá conhecemos o David, seu primo – que não lembro o nome, o Antonio e a Jaqueline.

Brasil Novo 09 - Brasil Novo 09

O Marcos descobriu que a Jaqueline havia feito um trabalho para a escola, bem parecido com o que estamos fazendo. Fizeram uma pesquisa entrevistando alguns moradores da cidade de Brasil Novo que chegaram por lá na década de 1970. Fiquei curioso, grudei na Jaqueline até ela me contar como foi tudo.

Conseguimos uma cópia do DVD que gravaram com as entrevistas, vi algumas fotos e ouvi muitas histórias da cidade. A Art Pães virou o nosso ponto de parada oficial. A família deles é tão cativante que nos sentimos em casa. Por falar nisso, em menos de meia hora já estávamos na casa deles. Toda construída pelo Antonio é ampla e muito bem arejada. Fomos parar lá por conta da prestatividade da Jaqueline, – um ponto forte da família - que se prontificou a nos ajudar de imediato e correu para conseguir uma cópia do DVD, agilizar umas fotos que estavam na escola, nos contar as histórias que ouviu. Uma doce de menina! Muito obrigado, Jaque!

Mas as horas passaram rápido em Brasil Novo. Da padaria fomos à casa do Levy. O Marcos queria conhecer uma aldeia indígena e a propriedade do Levy faz divisa com uma reserva. São vizinhos e amigos!

Brasil Novo84 - Brasil Novo84

Da conversa com o Levy e sua família ficaram boas risadas e um convite para conhecermos a propriedade. A conversa fluiu de aldeia indígena à atoleiros e transversais instrasponíveis. O desafio era a 23.

Topamos! Ele não acreditou. No dia seguinte pela manhã tinhamos algumas coisas a fazer na cidade. Dentre elas uma visita à prefeitura e depois disso fui conhecer a Dona Maria José e Seu Antonio José, que me contaram um pouco das suas histórias. Muita luta e satisfação com as conquistas. Na casa deles conheci o Chagas, um dos seus filhos. Da boa conversa ainda ficou o convite para um visita ao centro de estudos sobre o Cacau, na CEPLAC em Medicilândia. Faremos tudo para ir.

Brasil Novo 109 - Brasil Novo 109

No dia seguinte cedinho saimos em direção ao Levy. No caminho o Grande e as cavernas de Planaltina. São umas cavernas de arenito enormes. Algumas ainda pouco exploradas. Para chegar nas cavernas pegamos a quinze, cerca de oito quilômetros à frente de Brasil Novo. De travessão foram mais quatro e chegamos. Fácil fácil!
Na entrada uma cancela, uma terra escorregadia e o Grande. Ah! Ele é o responsável pela propriedade. O que antes era uma área com dono e sem cuidados, aberta a todos e aos cuidados de quase ninguém, agora ganhou novo dono e muito cuidado.

Brasil Novo e Medicilandia10 - Brasil Novo e Medicilandia10

Agora a palavra por lá é preservar e quem quer destruir não é bem-vindo. Do contrário é um lar! Confesso que não perguntei o porque do apelido, mas o grande nem é muito alto. É, se comparado comigo. Com o Marcos, nem tanto!

Ele nos recebeu com a maior alegria. O dia estava chuvoso e o Grande saiu seco de casa, com a maior disposição de nos mostrar as cavernas. Com tanta empolgação nem poderíamos pensar em não ir.

Brasil Novo24 - Brasil Novo24

Lanternas nas mãos e cabeça partimos. Antes de chegar na primeira caverna a chuva começou a cair. Que jeito? Entramos.

Brasil Novo22 - Brasil Novo22

O Marcos não se sente muito confortável em cavernas e ficou pela entrada. Eu e o Grande seguimos escuridão a dentro. Em poucos metros a quantidade de morcegos chegava a assustar. A lanterna de cabeça desliguei devido aos rasantes. Por conta da luz vinham sem cerimônia na direção do meu rosto. Nada confortável.

Brasil Novo20 - Brasil Novo20

Grande! Você conhece essas cavernas, perguntei.
Só até ali, ele me disse. De lá nunca passei.
Por que? Perguntei
Sozinho tenho medo. Foi o que ele me disse.

Agora sim! Marcos na porta. O Grande pouco conhecedor das cavernas. Os morcegos guias e eu apreensivo e curioso. As histórias em torno delas são muitas. Caverna que tem gás, um americano se perdeu, não sei quem ficou preso, um professor da UFPA que disse ter um jacaré enorme lá dentro, há cobras e lagartos e uma piscina e uma queda d’água de água cristalina. Essa foi a mais convincente.

Brasil Novo31 - Brasil Novo31

Brasil Novo34 1 - Brasil Novo34 1

Decidimos nos aventurar. Seguimos juntos, quase de mãos dadas. Na entrada do primeiro salão de acesso a uma das galerias secundárias o Grande parou na porta e eu fui o sorteado a entrar. Entrei uns vinte metros e os morcegos quase batiam na minha cara. O cheiro é muito forte!

É das fezes, gritou o Grande!

Mais uns passos e cheguei ao final. Meia volta. Não é por aqui. Assim fizemos em mais umas duas ou três. O Grande na entrada para marcar a saída e eu dividindo o espaço com os morcegos.

Brasil Novo26 1 - Brasil Novo26 1

Decidimos seguir pela galeria principal. Da história do jacaré eu duvidava. Pensava comigo. Como pode um jancaré viver aqui?
O Grande defendia que ali era morada de pacas, tatus, veados etc. prato feito para o jacaré. Não me convenci. Jacaré? Lá dentro? Sei não!

Mais à frente paramos novamente. Agora estávamos seguindo um córrego que saía da caverna. Achamos que assim seria bem fácil seguir em frente. Somente pela galeria principal. O cheiro estava muito forte e a visão turva. Havia uma espécie de fumaça no ar e os insetos eram tantos que já incomodavam mais do que os morcegos. Parados com a mão na frente do nariz e dos olhos decidimos desligar um pouco as lanternas para ver no que daria.

No meio da conversa comento que o chão é engraçado. Um tipo de areia macia, parece até terra de adubo ou húmus. O Grande fala: – Terra nada! É bosta de morcego.

Bos…nem terminei a frase e liguei a lanterna pra ver. Quase não vi a bosta. Vi uma infinidade de baratas, aranhas, grilos e muitos outros insetos nos rodeando, cavando as fezes, pulando. Um movimento frenético tipo central do Brasil, tipo saída do Maracanã em dia de decisão. Não adiantava dar “piti”. O negócio era agradecer a bota e a calça comprida.

Ficamos entre sair da caverna e continuar andando. Continuamos! Mais à frente o riozinho tomou corpo e o barulho da água aumentou. Pensei que estivéssemos próximos da queda d’água. Iluminando o chão vi um buraco enquanto caçoava da história do jacaré. Nisso direciono o foco bem pro fundo do bucarco.

– Grande, chega aqui! Tem um bicho lá dentro. Vem ver!

Ele veio, chegamos bem perto! Caramba é um jacaré!
Tudo bem que ele não tinha os três metros do jacaré do professor, mas era um jacaré de verdade. Devia ter uns sessenta centímetros. Ficou acuado conosco, abriu o bocão e ficava fazendo um barulho feito um ronco. A aventura estava muito boa. Mas decidi voltar!
Acho que tanto eu quanto o Grande gostaríamos de ter um Sr. Wilson conosco. Lembram? Da Chapada dos Veadeiros!

No passo que saímos da “casa” do jacaré chegamos na entrada da caverna. Linha expressa, sem escalas. Lá estava o Marcos admirando a entrada da caverna e fotografando tudo o que podia.

Lançamos a idéia de voltar para fotografar o bichano. Ele não topou ir, mas deu força esticando a mão para eu pegar a câmera. Apesar de achar que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, peguei-a e voltamos ao local. Do jacaré, ficou apenas a foto do buraco. Ele ainda estava lá, mas dessa vez mais entocado e não achei uma boa idéia colocar a mão lá dentro para tentar a foto. Ele vai ficar na lembrança. O buraco está aí!

Brasil Novo35 1 - Brasil Novo35 1

Das cavernas ainda tinhamos um bom caminho pela frente. Queríamos chegar no Levy, que fica na vicinal 23. Estávamos na 15. A coisa aqui funciona assim: A principal é a transamazônica. As transversais chamam-se travessões ou vicinais. Ao sul – à esquerda da estrada – têm a numeração ímpar. Ao norte o contrário.
Um travessão pode chegar a mais 100 km, mas nesse caso era de aproximadamente 45 e entre os travessões a distância é de aproximadamente 5 km e na maioria das vezes passam por dentro das propriedades, por pastos, currais etc. Se no travessão já é um tal de abre e fecha colchete danado, imaginem nas que ligam os travessões!

Então, ainda precisávamos percorrer cerca de 30km pelo travessão e passar da 15 para a 17, daí para a 19. Da 19 para a 21 e chegar na 23. Fizeram a conta? Tudo muito fácil. Ainda mais porque tínhamos tudo muito bem detalhado numa folha, surrada, de caderno com dimensões de 10cm x 15cm aproximadamente.

Caminho para o Levy - Caminho para o Levy

A primeira indicação era um um curral preto na beira da estrada, ao lado de um pé de mato grande. Vimos o curral. O pé de mato melhor não comentar. Paramos e perguntamos!

Um senhor lá do fundo do terreno gritou: – Fica há 8 km à frente. Nossas contas diziam uns dois. Fazer o que? Tocamos em frente.

A segunda era uma tranqueira, logo após um mata burro. Titubeamos. Paramos. Ufa uma moto!
– Escuta, amigão! Seguindo por essa tranqueira conseguiremos chegar na 17?

– Hum…..Pra onde querem ir? Perguntou ele.
Ah! Pra casa do Levy! Mas é muito longe daqui, é lá na 23! Sou o Tuti, cunhado dele – que coincidência. Tem um caminho mais fácil………..Achamos melhor mostar o mapa. Qualquer mudança no roteiro poderia nos fazer perder as informações tão precisas que tinhamos. Decidimos seguir o plano original cunhado pelo próprio Levy.

Seguimos curral a dentro e mais porteiras. Depois de uns 6km chegamos na 17. Daí deveríamos seguir por mais 25km até chegarmos na entrada para a 19. Chegamos e foi fácil. Mas chegamos na beira do rio Xingu! Fim da linha. Mais à frente só tinha água.

Decidimos voltar e perguntar. Voltamos uns 3 km e encontramos uma casa de colonos. Antes dela uns “porcos selvagens” que não nos deram a menor atenção.

Brasil Novo41 - Brasil Novo41

Segundo o colono estávamos perto. Era só voltar mais uns dois quilômetros e cruzar o colchete à esquerda. De colchete em colchete estávamos quase na 21 quando encontramos uma F4000 agarrada na poça. Opa! Mais ação.

Brasil Novo50 - Brasil Novo50

Querem ajuda? Antes que repondessem já saltamos do carro e começamos a analisar o que fazer. Vamos passar com o Busão pelo lado e de lá puxamos eles pra frente. Feito!

Brasil Novo52 - Brasil Novo52

Depois de um cabo de aço do guincho arrebentado – falha minha – tiramos a F4000 da poça e, como o motorista havia saído para buscar ajuda, o Marcos teve seus momentos de motorista de carro de linha.

Agora já tinhamos a quem seguir. O negócio é que eles correm muito e acompanhar a F4000 lotada de gente não estava fácil. Mais à frente nos disseram: - Aqui vocês seguem pra lá. Só seguir em frente……e sumiram na “poeira”.

Nós fomos em frente como disseram. A essa altura já tinhamos nos perdido no mapa, mas seguir em frente parecia ser fácil demais. Ainda tivemos que perguntar mais umas quatro vezes. Mas chegamos!

Ao chegar no Levy, não sei o que mais nos chamou a atenção. Se a festa que fizeram ou o visual da sua casa na beira do Iriri.

Brasil Novo166 - Brasil Novo166

Fomos recebidos com a maior festa por todos que estavam lá. Assim que colocamos o pé na casa recebemos duas pamonhas. Tiramos as botas, entramos na varanda da casa e traçamos as pamonhas. Mas não ficaria apenas nisso. Mais tarde ajudariamos a fazê-la. Deu no que deu!

Brasil Novo e Medicilandia15 - Brasil Novo e Medicilandia15

Nom dia seguinte saimos cedo para procurarmos umas castanhas no pé. Atravessamos o rio numa voadeira e chegamos na terra do meio. O terreno estava bastante alagado e chegar em solo firme deu um trabalhão. Primeiro tivemos que desviar o barco das árvores, dos galhos, dos cipós. Foi uma aventura! Saimos do barco com água pela cintura e caminhamos pelo alagado. Após pisarmos no seco andamos por cerca de uma hora até acharmos a primeira castanheira. Como estava fora da época das castanhas, não tivemos muita sorte. Mas achamos algumas. Não estavam uma delicia. Mas o passeio valeu muito.

Dessa aventura ficamos sem fotos. As imagens que temos estão na filmadora. A fotográfica quase não viu muita coisa. Para não ficarmos totalmente na secura, seguem essas.

Brasil Novo122 - Brasil Novo122

Brasil Novo113 - Brasil Novo113

Depois de “catar” castanhas na floresta fomos conhecer as corredeiras do Iriri de perto. No verão são cachoeiras, mas nessa época o rio sobre tanto que quase não dá para acreditar que nesse lugar se formam praias e mais praias nos meses de “verão”.

Bom! Da 23 seguimos para a 21 e depois para Medicilândia. Essa conto na próxima.

19 comentários 13 de Março de 2008 às 13:12 admin


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