Arquivo de 18 de Fevereiro de 2008

Ainda em Altamira

Amigos

Fiquei de voltar ontem, mas não foi de vontade da internet. Volto hoje com duas passagens muito importantes para nós. Algumas fotos retornam, agora dentro do contexto.

Portolan - A dica da embreagem é boa. vou seguí-la. Hoje vou sangrar o sistema e trocar o fluído. Não há vazamento algum. esse é o maior mistério. Nem no mestre e nem no escravo. O nível baixou tão pouco que não encontramos uma justificativa para a troca dos cilindros. A embreagem é nova, cerca de 35.000km. Estudei o manual de manutenção da defender e farei todo o procediemento. desde a regulagem. Caso não dê jeito vou trocar já os cilindros. Pro ora estamos querendo nos adiantar ao possível contratempo, pois apesar da embreagem estar funcionando normalmente, daqui para a frente não teremos mais os recursos que temos aqui.

Ester - A saudade também é grande para nós que estamos aqui. Mesmo com a incrível hospitalidade do povo Paraense (com maiúsculas mesmo) e dos aprendizados que essa viagem tem nos proporcionado, a vontade de nos deparar com a paisagem da Cidade Maravilhosa é grande. Agora falta pouco e sobre a saudade vou usar uma frase do Amyr Klink quando perguntado sobre essa questão. Ele disse mais ou menos assim: - Saudade só não sente se não se tem para quem voltar.

Quincas e André - Também estamos esperando tudo isso e achamos que o carro está muito limpo. Pensamos até em achar uma lama para jogar nele e tirarmos uma foto, mas tenho certeza que o Busão não aceitaria isso. O caminho está certo, mas o progresso parece que anda mais rápido do que nós. Soubemos que daqui para a frente o caldo engrossa. Veremos!

Bernardo - deixou essa para o Marcos responder

Maira - Sim essa é uma das vicinais. Essa foto foi tirada durante a fonte de inspiração para mais um artigo. O título já te adianto, mas o conteúdo ainda não foi escrito. Tudo começou com uma carona que tomaria cerca de 4km. terminou em 12km, mas valeu a pena.
Como a net anda muito lenta, não consegui postar todos os textos, mas ainda farei. Realmente essa boiada apareceu após a curva e ficamos encurraldos por eles. O jeito foi parar e esperar. Pena que a máquina não estava na mão pra tirar mais fotos.

Beatriz - Bem que disse que acompanharia a viagem conosco. Que bom que está acompanhando e gostando dos causos. mande, por favor, um aloha para o pessoal da Vicel.

Motta - Aquilo é um fogão muito louco que o Marcos descobriu na casa do prefeito de Anapu. Parece um vulcão, mas dizem que a comida fica muito gostosa. Voltaremos lá um dia para comprovar.

Soubemos que no you tube há um video falando sobre o Cinema na Roça. Quem tiver um tempinho de pesquisar poderia nos passar o endereço?

4 comentários 18 de Fevereiro de 2008 às 17:24 admin

Um café, uma galinha….uma Família!

Preciso dar uma parada! Assim que chegar o próximo Graal vamos dar uma encostada pra eu ir ao banheiro. Disse o Marcos em tom de brincadeira.

Fo 1 - Fo 1

Fo 3 - Fo 3

Não era bem um Graal, nem uma Dutra ou a 040. Mas era a 230 com seus encantos e segredos.
Paramos! Ao invés do Graal achamos o comercial Rodrigues. Uma venda na beira de estrada, aonde se compra de farinha à gasolina, que é vendida nos galões, garrafas e até em copo se quiser.

Fo 2 - Fo 2

Saltamos e o Marcos não resistiu! Sabem de alguém que more aqui há muito tempo? Disparou. Chegar nos lugares é sempre um acontecimento. Desde que saimos de Marabá só vimos uma Land. Parece que é de Uruará. Ainda chegaremos lá!
Mas voltando à história, responderam para ele. Aqui?! Tem seu Zé Carinha e Seu Daniel, que já é morto. Eles chegaram aqui quando não tinha nada. E ainda não tem muito.

A referência da casa do Zé Carinha é a placa do Banco da Amazônia e o transformador. Fomos pela placa e……. casa vazia, trancada, empoeirada e parece que abandonada há tempos!
Antes de achar que o Zé Carinha havia saído da cidade sem deixar rastro resolvemos perguntar novamente.

Fo 4 - Fo 4

Placa havia em duas, mas transformador apenas em uma. Paramos em frente.
- O sr é o Zé Carinha? Perguntei ao moço que descia da moto e a entregava a uma menina de uns 15 anos.
- Sou o filho dele, respondeu o Zé Carlos.
- E ele está?
- Tá sim. Vou chamar!

E veio um homem simpático e falante com as feições marcadas pelo tempo e pela vida. Agora sim tinha cara de quem havia chegado lá, pelas bandas de 1972. Sem muita cerimônia, embaixo de uma árvore que arrisco ser um pé de cacau – para dar graça à história – e espantando os mosquitos que não perdoavam os afoitos que tomados pela emoção desceram do carro sem passar repelente, desandou a contar a sua história.

Fo 5 - Fo 5

Não podíamos perder aquele momento. Resistimos aos mosquitos e a conversa tomou uma dinâmica tão agradável que fomos lembrar dos mosquitos apenas mais tarde.

O destino estava selado. Passaríamos várias horas por lá! Seu Zé Carinha – engraçado chamá-lo assim – perguntou se já tinhamos almoçado e antes de respondermos nos tocou para dentro de casa e serviu um porco assado. O melhor até agora!

Fo 6 - Fo 6

Quando entendeu o que pretendíamos agiu rapidamente. Hoje vocês ficam por aqui. Zé Carlos! Leve os meninos na sua mãe! Chame ela pra cá!
Chame também De Assis, as crianças…vá lá, vá!

Entramos no carro, eu e Zé Carlos. Enquanto isso o Marcos continuou na casa deles comendo, conversando e fotografando.

Fo 7 - Fo 7

Ao chegarmos aonde estava a Dona Rosa, Zé Carlos não resistiu e foi brincando com a mãe.
- Mãe esse moço veio do Rio de Janeiro trazer notícias do Tio Francisco, sumido há muitos anos.

Elas estavam preparando um mingal de milho que quase desandou naquela hora. O silêncio foi grande! Dona Rosa me olhou com um olhar que marcaria nossa estadia, colocou a mão no rosto, apertou as bochechas e disse: não acredito!

Fo 8 - Fo 8

Na mesma frase, meio sem jeito engatei: Ainda bem que a senhora não acredita, pois espero que o motivo da nossa vinda aqui tenha sido bom. Mas nem tanto quanto seria trazer informações dele.

O que parecia ser um momento tenso não foi. Logo largamos umas boas gargalhadas e o Zé Carlos foi quem abriu o coro. Ufa! Que bom!

E Dona Rosa ficou animada novamente ao saber da nossa idéia. Quase deu um salto da cadeira e pediu que as netas reunissem toda a família. Vamos lá! Avise ao De Assis, as meninas todas. Chame Geizyane, Nathyelle, Josivânia, Gleicyane, Jéssica, Mikaelle, Angélica, Caio…….anda, anda! Todo mundo. Vamos!

As horas passaram muito rápido, fizemos a foto, falamos da vida e resolvemos fazer uma sessão em Vila Nazaré. Acho que foi a sessão mais rápida de todas. Em poucas horas divulgamos a sessão, conseguimos o local, inflamos a tela, ligamos o som………..esse detalhe deixo para contar outra hora….. e eles escolheram o filme. A chuva chegou no final. Quase não atrapalhou. Era a nossa primeira em plena Transamazônica.

Paramos em Vila Nazaré para um descanso e encontramos essa família. Nos sentimos tão em casa que dormimos com eles. Peguei a galinha e Dona Rosa cuidou dela. À noite comi a melhor galinha da 230.

Fo 9 - Fo 9

Vejam vocês. Nós pensamos que iríamos presenteá-los com a fotografia e nós quem ganhamos uma família. Fomos tão bem recebidos que ir embora foi muito difícil. Depois de lá já nos reencontramos algumas vezes. Umas 3 com o De Assis em Anapu e uma com a Dona Rosa em Altamira.

Dona Rosa tem o sonho de conhecer o Rio. Ela e “seu” Zé Carinha! Cicerone, casa e comida já têm. Ficou por conta deles marcar a data. Que seja breve.

Fo 10 - Fo 10

Se você estiver na Transamazônica e for passar pela Vila Nazaré lembre-se: A casa do Zé Carinha e da Rosa é parada obrigatória.

Antes de partir ela nos disse: Sabe que na noite passada tive um sonho. Nele tirávamos uma foto com todo mundo aqui. Igualzinha a de um vizinho nosso, pra colocar na parede e ficar vendo. Agora já têm!

Fo 11 - Fo 11

11 comentários às 16:25 admin

O caminho do Cacau

“– Eu tinha 36 anos - quase a minha idade atual - e vi na revista uma foto daquela estrada”. Aquilo mudou a minha vida e ditou meus passos seguintes. Depois de muita conversa em casa – às vezes acalorada – e de noites sem dormir conseguimos arrumar as malas. Pegamos nossas coisas e as embalamos. Depois de fazer a nossa inscrição ficamos aguardando eles chamarem. Quando avisaram que o avião ia sair fomos para um hotel. tudo pago por eles! E pensamos que ia ser uma maravilha, tinha de tudo. Muita comida, tudo luxuoso. Que depois pagamos cada centavo.
No amarrado não podia faltar a rede, a panela e o facão que naquela época andava agarrado na cintura o dia todo. Hoje não mais, quase nem preciso dele!

Foto 1 1 2 - Foto 1 1 2

Assim começou a conversa numa agradável varanda da casa do Sr. Luiz e da Dona. Raimunda, logo após a segunda ponte para quem vai de Anapu a Pacajá. Dona Raimunda entrou devagar na conversa dizendo que a memória já não ajudava mais a contar.

Foto 2 1 2 - Foto 2 1 2

Vim porque tinha o sonho de dar à minha família mais do que tive. Não queria que meus filhos tivessem que comer “pau cozido” com farinha. Na minha cidade a seca era violenta e sem a chuva nada dava. Cansei de viver ao destino e resolvi pegar a estrada.

Foto 3 Carro de boi - Foto 3 Carro de boi

O tempo passou rápido e vi muita gente voltar ou morrer. Eu mais minha família fomos ficando e luntando com as dificuldades. Naquela época o mato era fechado e nós tampávamos mata a dentro, dia e noite para preparar a terra (e virava o olhar para as mãos calejadas e marcadas pelo tempo). Mogno mesmo eu nunca vi nas minhas terras! Agora tinha muio pau grosso aí pra dentro.

Eu mesmo me livrei de morrer uns par de vezes. Malária aqui espantava todo mundo. Teve vez da família inteira ficar de cama sem poder parar de trabalhar. Tinha horas que pensávamos que viemos pra cá pra morrer. Mas naquela época nós era forte e hoje estamos aqui.

Foto 10   Luiz e o Louro - Foto 10   Luiz e o Louro

Os filhos já caíram no mundo. Um vive aqui outro acolá. Da terra, só nós mesmo que tiramos o sustento. Nós mais o Evandro, nosso neto e filho.

Foto 9   Evandro 1 - Foto 9   Evandro 1

Entre uma lembrança e outra o tempo foi passando e fomos nos embrenhando na história de mais uma família que havia largado o seu passado para começar tudo novamente. As vezes a memória falhava e, como o rebubinar de uma fita, voltávamos tudo ao começo. Aquela história parecia não me cansar nunca. Tinha a impressão de que passaria todos aqueles anos com eles para ver com os meus próprios olhos. Mas a riqueza de detalhes com a qual o Sr. Luiz contava a história era tamanha que sentia as dores e alegrias que sentiram.

Foto 5   Luiz e Raimunda 1 - Foto 5   Luiz e Raimunda 1

Depois de umas horas de conversas me sentia parte daquela família. Daí fomos conhecer o cacoal deles. O cacau começou aqui com o Zé Carinha. Eles (INCRA) tinham umas linhas de plantio. Só depois que fizeram a experiência com o cacau.

Foto 6   Cacau - Foto 6   Cacau

No início eu plantei feijão. Mas não deu bem! Perdi tudo na primeira safra. Na hora de passar o fogo choveu sem parar e ficamos quase seis “meis” com chuva direto. Amargamo quase um ano vivendo de caça e lutando com as doenças. Mas hoje estamos aqui.

Foto 8   Luiz e o cacau 1 - Foto 8   Luiz e o cacau 1

Essa história se prolonga por toda a tarde. Já havíamos perdido a hora de irmos embora de Anapu. Mas quem se importava com isso? Eles queriam que ficássemos, nós também. Mas a 230 nos esperava. Outras histórias como essas se escondem nas curvas da estrada.

“Vocês são os primeiros. Não! Nesse tempo todo veio uma outra moça saber da nossa história”. Mas com ela foi rápido. Vocês são a segunda pessoa que vem aqui se interessar pela nossa história. Foi um prazer contar!

Mal sabe ele que o prazer mesmo foi ouvir. E ouviria muito mais. Passaria dias vivendo aquela história. Dona Raimunda, Sr. Luiz, Evandro, Regiane e Francisca (a Goiana) fazem com que os quilômetros e a saudade que sentimos de casa sejam minimizadas.

Foto 7   A fam  lia 1 - Foto 7   A fam  lia 1

Depois voltamos…………

7 comentários às 16:00 admin


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